UMA AMBIÇÃO MAIOR

UMA AMBIÇÃO MAIOR

Uma Ambição Maior – A Reversão da Curva de Perda de Biodiversidade

Texto extraído do Relatório Planeta Vivo 2018 do WWF

A biodiversidade já foi caracterizada como a “infraestrutura” que sustenta toda a vida da Terra. Os sistemas naturais e ciclos bioquímicos que a diversidade biológica gera permitem o funcionamento estável da nossa atmosfera, oceanos, florestas, paisagens e cursos d’água. Em termos simples, são um pré-requisito para que nossa sociedade humana moderna e próspera exista e continue a progredir.

Sem um movimento drástico que vá além do cenário tendencial, a grave decadência atual dos sistemas naturais que sustentam as sociedades modernas continuará, e com sérias consequências para a natureza e para os seres humanos. De agora até o final de 2020, existe uma janela única de oportunidade para moldar uma visão positiva para a natureza e os seres humanos. A Convenção sobre Diversidade Biológica está passando pelo processo de definição de novas metas e objetivos para o futuro. Estes, juntamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, serão os principais ordenamentos internacionais para proteger a natureza e melhorar a biodiversidade. 

Apesar de numerosos estudos científicos e acordos internacionais confirmarem que a conservação e o uso sustentável da diversidade biológica são uma prioridade global, a evolução mundial da biodiversidade continua em declínio. A Figura 10 mostra fielmente o péssimo desempenho dos sistemas naturais desde a entrada em vigor de acordos internacionais, como as metas da CDB. No entanto, também oferece uma visão para o futuro: se mirarmos mais alto e nos afastarmos do modelo tendencial, adotando abordagens criadas para restaurar a natureza, em vez de simplesmente permitir uma queda gerenciada, poderemos alcançar um mundo mais saudável e sustentável que seja bom para os seres humanos e para nossos sistemas naturais.

O plano estratégico da Convenção sobre Diversidade Biológica (2010-2020) inclui as 20 Metas de Aichi a serem alcançadas até 2020. Projeções recentes sugerem que a maioria delas não têm sido alcançadas. A visão para 2050 vai exigir metas ainda mais ambiciosas, que vão requerer recuperação da biodiversidade e dobrar a curva até 2030. A linha em preto indica as atuais tendências (até 2015), as linhas pontilhadas mostram extrapolações das tendências atuais (em preto), e projeções para biodiversidade após 2030 com declínio (em vermelho), com estabilização da perda (em laranja) e recuperação (em verde).

Uma proposta de “plano para a biodiversidade: 2020-2050” 

Essa degradação da natureza figura entre os problemas mais sérios que o mundo enfrenta, mas as metas atuais e as respectivas providências equivalem, na melhor das hipóteses, a uma queda gerenciada. Esta seção é inspirada em um artigo elaborado durante o levantamento de ideias para esta edição de aniversário do Relatório Planeta Vivo e publicado em 14 de setembro de 2018 na Nature Sustainability. Aiming Higher – bending the curve of biodiversity loss (em tradução livre, “Uma ambição maior – revertendo a curva de perda de biodiversidade) postula que o que o mundo exige são objetivos ousados e bem definidos e um conjunto de medidas críveis para restaurar a abundância da natureza em níveis que permitam a prosperidade de seres humanos e natureza. No artigo, os autores sugerem três etapas necessárias em um roteiro para a agenda pós-2020: (1) especificar claramente o objetivo para a recuperação da biodiversidade, (2) criar um conjunto de indicadores mensuráveis e relevantes de progresso e (3) acordar um conjunto de medidas que possam alcançar coletivamente o objetivo no prazo necessário. Passamos agora à descrição de cada uma delas.

Etapa 1: Tradução da visão de inspiração em um objetivo ambicioso 

A primeira etapa da elaboração de um roteiro de biodiversidade é a especificação do objetivo. A atual visão da CDB é que “Até 2050, a biodiversidade é valorizada, conservada, restaurada e usada com sabedoria, mantendo os serviços ecossistêmicos, sustentando um planeta saudável e proporcionando benefícios essenciais para todos os seres humanos”. Quando foi redigida, ela era uma visão de inspiração para o futuro. O artigo argumenta que essa visão é concreta e alcançável o suficiente para constituir a base do objetivo de um acordo pós-2020 sobre a biodiversidade. O alcance deste ambicioso objetivo exigirá um novo conjunto de metas que visem mais alto e que permaneçam além de 2020.

Etapa 2: Identificação de formas de se mensurar o avanço rumo ao objetivo 

Manter o controle da situação da biodiversidade e do avanço rumo às metas requer indicadores adequados. A avaliação da biodiversidade requer diversos indicadores em distintas escalas espaciais e em distintas dimensões ecológicas. As diferentes métricas que estão em uso comum refletem diferentes propriedades da biodiversidade, e suas respostas às pressões variam. Mace et al. defendeu indicadores capazes de rastrear três dimensões importantes da biodiversidade necessárias para a visão e os objetivos descritos aqui, e nas metas da CDB e dos ODS: 1) Taxa de extinção em escala mundial: A magnitude de ameaça do risco de extinção das espécies é estimada pelo Índice da Lista Vermelha (ILV) ; 2) Variações na abundância das espécies: A evolução da abundância de espécies silvestres é bem registrada em indicadores de nível populacional, como o Índice Planeta Vivo (IPV) ; 3) Variações na biodiversidade local: Variações na “saúde” dos ecossistemas podem ser estimadas comparando-se o que existe atualmente com o que já existiu em um determinado local com base em indicadores como o Índice de Biodiversidade Intacta (IBI).

Etapa 3: Identificar medidas para realizar a transformação necessária na biodiversidade global 

Cenários e modelos podem ajudar os cientistas a visualizar e explorar como as medidas alternativas afetam as interdependências dinâmicas entre a natureza, seus benefícios para os seres humanos e a qualidade de vida. Contudo, o desafio que enfrentamos é que precisamos, além de identificar possíveis vias que nos permitam restaurar a biodiversidade, alcançar a transformação necessária enquanto alimentamos uma população ainda crescente sob os efeitos acelerados da mudança do clima em um mundo em rápida mutação. Portanto, embora intervenções tradicionais de conservação da biodiversidade como planejamento de áreas protegidas e da conservação de espécies continuem cruciais, a ação também deve equacionar os principais fatores de perda de biodiversidade e de alterações nos ecossistemas, como a agricultura e a superexploração.

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